Causa Mortis

September 29, 2008

Passavam das 4 da manhã e ele estava lá, contando as horas para o último suspiro. Já estava velho, doente, ignorava as dores. Não sabia que horas eram, mas acreditava que eram suficientes para que o andar inteiro já estivesse dormindo. O silêncio ecoava em sua cabeça com as mil vozes de sua consciência, arranjando mil culpados. Ele já tinha um cristo a quem crucificar, e decididiu que poderia passar as últimas horas de sua vida odiando mais e mais, até que encontrasse seu fim no ápice do rancor.

Não importa o que fizesse, ele não poderia esquecer o que ela havia feito. Tinha certeza, era tudo culpa dela. De quem mais poderia ser? Não havia outro culpado, certamente.

Sentiu dores no estômago. Maldita úlcera, era incessante, nada podia acalmá-la. Era equivalente a seu ódio pelo mundo, destrutiva, corrosiva, terminal. Ele sabia o motivo de sua úlcera: Ela. Claro, quem mais poderia ser? Ela era sua úlcera, havia se fundido em seu corpo apenas com objetivo de destruí-lo. Praguejou novamente, desejou crucificá-la com milhares de pregos e riu ao imaginar a tortura sádica.

Começou então a lembrar de todos os problemas. Ela era a raíz de tudo. Ela era a culpada pela úlcera que hoje o corroía por dentro. Ela era a culpada pelo seu colesterol alto. Ela era a culpada por seus problemas na coluna, por seu fígado miserável e por seu coração paralisado. Por seu coração, mais do que pelas outras coisas.

Se vangloriou por todos os dias que havia se dedicado a ela. Por tudo que havia feito, pelos esforços, pelas vontades ignoradas, por todos os dias de sua vida que foram voltado a ela, para lhe agradar, satisfazer todas as suas vontades. As vontades dela, eram as dele. Os dias dela, eram os dele. Não precisava de dias pessoais, bastava viver os dela. Isso o deixava feliz.

Ao menos era o que achava inicialmente. Com o tempo sentiu que toda sua energia havia sido drenada, levada embora. Ela havia levado. Levou sua energia e foi embora. O que havia feito por todos esses anos? Certamente estava em extase. Como não havia percebido o que estava fazendo? Era impossível. Como negar simpatia a alguém tão convincente? Como não poderia ter se dedicado ao máximo? Não deveria ter feito isso, mas fez. Acreditou em tudo, rastejou, foi envolto e entorpecido no mar de mentiras confortáveis que lhe confundiam os sentidos, lhe tiravam a razão.

Detestou-a ainda mais. Como ela poderia ter feito isso com ele? E fez. Foi embora e deixou-lhe um mar de doenças. Eram todas culpa dela, pensou novamente. Jamais teria bebido tanto se não fosse por ela. Jamais teria comido tão mal, jamais teria estado tão nervoso, jamais teria fumado até parar de respirar. Tudo culpa dela.

Ela era seu câncer. Ela estava no seu pulmão, corroendo, destruíndo-o. Estava em todos seus orgãos, degenerando–os apenas para vê-lo sofrer e ir embora, sem impedimentos, como fazia. Ela merecia estar naquele leito, sofrendo as pragas, pensou consigo.

Não sabia quantas horas haviam passado. Não conseguia dormir, sentia que as dores trabalhariam duro aquela noite, para que ele lembrasse de toda sua história. Num lapso racional, conseguiu enxergar que havia feito tudo isso porque quis. Sim, nem ela nem ninguém poderia tê-lo obrigado a cometer tais atrocidades consigo mesmo. Então… não era culpa dela? Como ele poderia assumir seus próprios erros? Precisava de um cristo. No fundo, sabia que poderia ter mudado seu fim. Praguejou novamente.

Fechou os olhos e deu um último suspiro. No atestado, a constatação: Causa Mortis: Arrependimento.

1 Comment »

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  1. CAralho… mto bem escrito, mto mto mto mto bom mesmo, sei que vc vai ficar com raiva mas a princípio pensei que era cópia ou citação de conto de algum autor… mto bom mesmo… devia tentar enviar pra um jornal…
    Parabéns, te amo bjs bjs

    Comment by Ronaldo Goblin — September 29, 2008 @ 9:18 pm

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