Novo blog!

August 27, 2009

Finalmente registrei uma URL e fiz o blog num sistema Worpdress. Raros leitores, agora vocês poderão continuar lendo o blog em:

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Daemon

September 29, 2008

Resgatando um dos textos que mais gosto do antigo blog, antes que o blogger se encarregue de apagá-lo.

Postado originalmente em 06/06/07.

Daemon Civile

Na avenida mais movimentada da cidade onde pessoas demonstravam claramente os contras da pós-modernidade, esbarrando, desviando, correndo, observando rapidamente numa tentativa falha de flanar pela metrópole, apenas duas pessoas distraídas puderam ver a presença dele.

Entre um esbarrão e outro, pude reparar um encontro peculiar.
Vindo de direções opostas os dois se chocaram com um certo tom de agressividade. Foi um choque forte, de ombro no peito do traseunte distraído que foi pego com tamanha obstinação que sentiu-se como se tivesse sido escolhido propositalmente.

Parou com um ar de surpresa e logo enfureceu ao ver o autor do esbarrão, franzino e visivelmente mais baixo, olhar para trás de canto de olho e sorrir sarcasticamente.
Nervoso, caminhou em direção ao encrenqueiro devagar, olhando fixo como um caçador na espreita, esperando uma reação do oponente.

O franzino virou-se quase no mesmo momento e arqueou as sobrancelhas. Riu, gargalhou e revelou ali, apenas para quem havia reparado a causa da situação, olhos vermelhos flamejantes. Não, não eram naturais. Eram brilhantes demais, estranhos.
O atingido pelo choque, outrora nervoso, agora encontrava-se atônito. Não sabia se partia para a planejada briga ou se recuava e fugia.

Então, o ser estranho dos olhos sobrenaturais caminhou em sua direção, cochichou uma palavra em seu ouvido e se mesclou na multidão que caminhava rapidamente, tornando-se anônimo de novo.

A esta hora sentia-me como se estivesse presenciado horas de dramatização, porém não havia passado sequer um minuto desde a vista do choque até a partida do estranho.
O alvo, que a esta hora provavelmente se sentia um balde de emoções, olhou para todos os lados a procura de uma testemunha que aprovasse o que havia visto. Ao me ver, me olhou com ar de dúvida, como se perguntasse se eu também presenciei.

Desviei o olhar e continuei a caminhar com pressa, ignorando o desespero do aturdido rapaz, que sentou no meio da calçada movimentada. Sentou e olhou para o céu, chorando, gargalhando, balbuciando palavras indecifráveis até para ele mesmo.
E as pessoas passavam altivas, desviando do lunático sentado. "Ora, quem sentaria no meio da calçada?" discutiam consigo mesmas.

Então ele puxou sua arma, mirou na cabeça e atirou. O estrondo ecoou por toda a avenida sobrepondo por alguns segundos o barulho dos carros. A sujeira espalhou-se pela calçada causando uma correria momentânea, e logo ele se tornou mais um obstáculo na calçada, como um vômito do qual todos desviam enojados.

Por alguns segundos me perguntei por que ele, qual o motivo daquilo. Mas só por alguns segundos, logo lembrei que estava atrasada.

Causa Mortis

Passavam das 4 da manhã e ele estava lá, contando as horas para o último suspiro. Já estava velho, doente, ignorava as dores. Não sabia que horas eram, mas acreditava que eram suficientes para que o andar inteiro já estivesse dormindo. O silêncio ecoava em sua cabeça com as mil vozes de sua consciência, arranjando mil culpados. Ele já tinha um cristo a quem crucificar, e decididiu que poderia passar as últimas horas de sua vida odiando mais e mais, até que encontrasse seu fim no ápice do rancor.

Não importa o que fizesse, ele não poderia esquecer o que ela havia feito. Tinha certeza, era tudo culpa dela. De quem mais poderia ser? Não havia outro culpado, certamente.

Sentiu dores no estômago. Maldita úlcera, era incessante, nada podia acalmá-la. Era equivalente a seu ódio pelo mundo, destrutiva, corrosiva, terminal. Ele sabia o motivo de sua úlcera: Ela. Claro, quem mais poderia ser? Ela era sua úlcera, havia se fundido em seu corpo apenas com objetivo de destruí-lo. Praguejou novamente, desejou crucificá-la com milhares de pregos e riu ao imaginar a tortura sádica.

Começou então a lembrar de todos os problemas. Ela era a raíz de tudo. Ela era a culpada pela úlcera que hoje o corroía por dentro. Ela era a culpada pelo seu colesterol alto. Ela era a culpada por seus problemas na coluna, por seu fígado miserável e por seu coração paralisado. Por seu coração, mais do que pelas outras coisas.

Se vangloriou por todos os dias que havia se dedicado a ela. Por tudo que havia feito, pelos esforços, pelas vontades ignoradas, por todos os dias de sua vida que foram voltado a ela, para lhe agradar, satisfazer todas as suas vontades. As vontades dela, eram as dele. Os dias dela, eram os dele. Não precisava de dias pessoais, bastava viver os dela. Isso o deixava feliz.

Ao menos era o que achava inicialmente. Com o tempo sentiu que toda sua energia havia sido drenada, levada embora. Ela havia levado. Levou sua energia e foi embora. O que havia feito por todos esses anos? Certamente estava em extase. Como não havia percebido o que estava fazendo? Era impossível. Como negar simpatia a alguém tão convincente? Como não poderia ter se dedicado ao máximo? Não deveria ter feito isso, mas fez. Acreditou em tudo, rastejou, foi envolto e entorpecido no mar de mentiras confortáveis que lhe confundiam os sentidos, lhe tiravam a razão.

Detestou-a ainda mais. Como ela poderia ter feito isso com ele? E fez. Foi embora e deixou-lhe um mar de doenças. Eram todas culpa dela, pensou novamente. Jamais teria bebido tanto se não fosse por ela. Jamais teria comido tão mal, jamais teria estado tão nervoso, jamais teria fumado até parar de respirar. Tudo culpa dela.

Ela era seu câncer. Ela estava no seu pulmão, corroendo, destruíndo-o. Estava em todos seus orgãos, degenerando–os apenas para vê-lo sofrer e ir embora, sem impedimentos, como fazia. Ela merecia estar naquele leito, sofrendo as pragas, pensou consigo.

Não sabia quantas horas haviam passado. Não conseguia dormir, sentia que as dores trabalhariam duro aquela noite, para que ele lembrasse de toda sua história. Num lapso racional, conseguiu enxergar que havia feito tudo isso porque quis. Sim, nem ela nem ninguém poderia tê-lo obrigado a cometer tais atrocidades consigo mesmo. Então… não era culpa dela? Como ele poderia assumir seus próprios erros? Precisava de um cristo. No fundo, sabia que poderia ter mudado seu fim. Praguejou novamente.

Fechou os olhos e deu um último suspiro. No atestado, a constatação: Causa Mortis: Arrependimento.